RECUOU SOBRE CLOROQUINA
Jair Bolsonaro - Carolina Antunes/PR
Brasília - O presidente Jair Bolsonaro defendeu,
nesta terça-feira, em pronunciamento, a preocupação com o trabalho
informal. Novamente tirando de contexto a fala do diretor-geral da
Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus,
Bolsonaro citou Ghebreyesus para falar do isolamento, mas mudou o tom
sobre o novo coronavírus, recuando sobre a eficácia da hidroxicloroquina
contra a covid-19, que defendeu recentemente, inclusive com vídeos nas
redes sociais.
"Desafio nosso é salvar vidas, tanto as que
perderemos, pela violência, e pela falta de emprego. coloco no lugar das
pessoas e entendo suas angústias, de forma racional e responsável. O
diretor da OMS disse 'saber que muitas pessoas tem que trabalhar', que
os 'governos têm que levar esta população em conta', 'se fecharmos as
fronteiras, temos que pensar o que acontecerá com que tem que trabalhar
com pão de cada dia'. Cada país, baseado em sua situação devia
'responder à sua maneira'", afirmou.
"Não me valho dessas palavras para negar a
importância das medidas de prevenção e controle da pandemia, mas para
mostrar que da mesma forma precisamos pensar nos mais vulneráveis. Esta
tem sido a minha preocupação desde o princípio", acrescentou o
presidente, ao citar trabalhadores informais e autônomos. Ele mencionou
que a hidroxicloroquina parece eficaz contra o novo coronavírus, mas que
ainda não há vacina ou remédio com eficiência cientificamente
comprovada.
"Na última Reunião do G-20 (grupo das vinte
principais economias do mundo), nós, os chefes de Estado e de Governo,
nos comprometemos a proteger vidas e a preservar empregos. Assim o
farei”, disse.
O presidente disse que as medidas de proteção à
população estão sendo implementadas de forma coordenada, racional e
responsável. Segundo Bolsonaro, o Brasil avançou muito nos últimos 15
meses, desde que tomou posse em janeiro de 2019, e sua preocupação
sempre foi salvar vidas.
Ele destacou políticas em defesa do emprego e da
renda como a ajuda financeira aos estados e municípios (com adiamento de
pagamento das dívidas), linhas de crédito para empresas, auxílio mensal
de R$ 600 aos trabalhadores informais e vulneráveis e entrada de cerca
de 1,2 milhão de famílias no programa Bolsa Família. "Temos uma missão:
salvar vidas, sem deixar para trás os empregos. Por um lado, temos que
ter cautela e precaução com todos, principalmente junto aos mais idosos e
portadores de doenças preexistentes. Por outro, temos que combater o
desemprego, que cresce rapidamente, em especial entre os mais pobres.
Vamos cumprir essa missão ao mesmo tempo em que cuidamos da saúde das
pessoas.'
Durante a fala de Bolsonaro, houve panelaço em
diversas cidades do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza,
Belo Horizonte e Salvador.
Bolsonaro afirmou que o governo está adquirindo novos
leitos com respiradores, equipamentos de proteção individual (EPI),
kits para testes e outros insumos. Também destacou o adiamento, por 60
dias, do reajuste de medicamentos no Brasil.
Bolsonaro destacou o
emprego das Forças Armadas no combate ao novo coronavírus e a criação
de um Centro de Operações para realizar ações de montagem de postos de
triagem de pacientes, apoio a campanhas, logística e transporte de
medicamentos e equipamentos de saúde.
O presidente destacou que
determinou ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, "que não
poupasse esforços, apoiando através do SUS todos os estados do Brasil,
aumentando a capacidade da rede de saúde e preparando-a para o combate à
pandemia”.
Bolsonaro agradeceu ainda os profissionais de saúde e
voltou a falar da importância da colaboração de Legislativo, Executivo,
Judiciário e sociedade civil para a preservação da vida e dos empregos.
OMS se posiciona
Mais cedo, Organização Mundial da Saúde (OMS)
rejeitou insinuações por parte do governo de Jair Bolsonaro de que tenha
apoiado a ideia de que políticas de isolamento não devam ser aplicadas.
Na
segunda-feira, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus,
usou sua coletiva de imprensa em Genebra para convocar os países a
também lidar com os mais pobres. Bolsonaro usou a frase para justificar
sua política de rejeição de medidas de isolamento.
Tedros, porém,
não se referia a isso. Mas sim à necessidade de que instrumentos sejam
criados para garantir o sustento dessas pessoas, por medidas sociais e
transferência de recursos.
Diante da polêmica gerada no Brasil e
o temor de que o discurso de Tedros fosse manipulado, a OMS decidiu ir
de maneira deliberada às redes sociais nesta terça-feira. Ainda que não
cite expressamente o nome do brasileiro, a entidade decidiu esclarecer
seu posicionamento em duas mensagens.
"Pessoas sem fonte de renda
regular ou sem qualquer reserva financeira merecem políticas sociais
que garantam a dignidade e permitam que elas cumpram as medidas de saúde
pública para a Covid-19 recomendadas pelas autoridades nacionais de
saúde e pela OMS", disse o direto-geral da OMS.
"Eu cresci pobre e
entendo essa realidade. Convoco os países a desenvolverem políticas que
forneçam proteção econômica às pessoas que não possam receber ou
trabalhar devido à pandemia da covid-19. Solidariedade", completou.
Pela
manhã, Bolsonaro tentou manipular as declarações do africano para
justificar sua política. "Vocês viram o presidente da OMS ontem?",
perguntou. "O que ele disse, praticamente... Em especial, com os
informais, têm que trabalhar. O que acontece? Nós temos dois problemas: o
vírus e o desemprego. Não pode ser dissociados, temos que atacar
juntos", disse.
Tedros, porém, não falou em trabalho. Mas na garantia de renda, conforme ele mesmo escreveu hoje em suas redes sociais.
Nas
redes sociais, Bolsonaro e seus filhos tem usado um trecho cortado da
fala de Tedros para justificar seu posicionamento, deixando de fora
outras partes em que o africano fala da importância do isolamento.
Essa
não é a primeira vez que a OMS responde ao presidente brasileiro. Na
semana passada, Tedros foi questionado pela coluna sobre a atitude de
Bolsonaro de minimizar a doença. "As UTIs estão lotadas em muitos
países", alertou o africano, em resposta. "É uma doença muito séria",
insistiu.
Na OMS, uma parcela dos técnicos acredita que Bolsonaro
poderia ser uma ameaça ao combate ao vírus, com posições que questionam
a ciência e confundem os cidadãos.
(Por
O Dia)