terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Apreensão recorde de fuzis no Rio acontece em áreas com aumento de casos de autos de resistência

RIO DE JANEIRO
 A polícia apreendeu 24 fuzis na Favela da Maré, em julho de 2019

A Secretaria de Polícia Militar fechou o ano com recorde de apreensões de fuzis em todo o estado. 

 Em 2019, 505 armas de grosso calibre foram retiradas de circulação, mais que os 330 recolhidos no ano anterior e os 382, em 2017. Os policiais de unidades especiais da corporação, como os Batalhões de Operações Especiais (Bope), de Choque e de Ações com Cães, foram as equipes que mais apreenderam fuzis (113). Dos 387 restantes, o 14°BPM (Bangu), o 41°BPM (Irajá) e o 7°BPM (São Gonçalo) foram os que mais apreenderam esse tipo de armamento. Nestas mesmas regiões, porém, os índices de mortes causadas por intervenção de agente de estado — os chamados autos de resistência — aumentaram.

Entre janeiro e dezembro, a região de cobertura do 14°BPM somou 130 mortes por intervenção policial, 145,2% a mais que no de 2018 (53). O número absoluto é o maior da série histórica desde 2003. Na área do 7°BPM, o ano passado fechou com 221 autos de resistência, 33% a mais que no período anterior (166). O total também é o maior da série histórica. Na região do 41°BPM também houve aumento. Em números absolutos, 108 pessoas morreram durante operações policiais, ou seja, uma alta de 22,7% em relação a 2018 (88).

Se analisada a série, o ano passado foi o terceiro com mais casos nesta área, atrás apenas de 2016 (118) e 2017 (112). O Instituto de Segurança Pública (ISP) ainda não divulgou os números do último mês de dezembro, mas a Secretaria de Polícia Militar antecipou os dados ao GLOBO.

O porta-voz da corporação, coronel Mauro Fliess, atribui a situação à ousadia dos traficantes.

— Esses fuzis vêm sujos de sangue porque quando a polícia chega, o bandido que tem essa arma nas mãos não a abandona, ele troca tiro.

O professor Ignacio Cano, do Laboratório de Análises da Violência da Uerj, acredita que com mais investigação é possível encontrar armas sem provocar mortes.

— O fuzil é uma arma de alto valor que não é abandonado facilmente. Então, há duas formas de a polícia apreender o fuzil, ou através de investigação, o que é relativamente raro, ou através de um confronto armado contra pessoas que portam a arma. Nesse sentido, a relação entre mortes pela polícia e apreensão de fuzis é esperável.

Para o professor Lenin Pires, do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), os números não surpreendem. Ele acredita que há a produção de um modelo de atuação das polícias, que se coaduna com as práticas discursivas de seus governantes, que cobram cada vez mais a violência letal. 

— De certa forma, esses números reproduzem uma ideologia dos governantes e dos setores que os apoiam, no sentido de que essa é a maneira mais adequada de administrar conflitos.

Previsão de aumentar número de operações em 2020

Na primeira semana de janeiro, o governador Wilson Witzel disse em entrevista à Rádio CBN que 2020 será um ano com mais operações policiais. De acordo com o saldo operacional da Polícia Militar, 4.875 ações aconteceram em todo o estado no ano passado. Questionada, a Secretaria não estimou o aumento, mas disse que a recomposição de recursos materiais (novas viaturas, armamentos e colete balístico), iniciada durante a Intervenção Federal em 2018, permite maior planejamento de operações à corporação.

O número de prisões realizadas em 2019 em todo o estado subiu 19% em relação ao ano anterior (29.712), quando ocorreu a Intervenção Federal. Ao todo, 35.415 pessoas foram capturadas. O total de menores apreendidos também saltou, de 5.543 para 5.936. E os mandados de prisão passaram de 5.185 para 5.310. Em 2017, antes de os militares do Exército assumirem a Segurança Pública no estado, 30.607 pessoas foram presas ou apreendidas (sendo 23.886 adultos e 6.721 crianças e adolescentes). Naquele ano, 2.252 mandados de prisão foram cumpridos.

A recomposição da tropa, acredita a secretaria da PM, é fator importante para o planejamento da tropa. Em 2019, quase 1.800 novas viaturas, 714 motocicletas e 111 veículos de apoio, além de pistolas, carabinas, fuzis e coletes balísticos.

— As nossas operações são sempre focadas em dados de inteligência, então, o que direciona onde e quantas é o cenário traçado pela inteligência. Com mais recursos, aumentando a operacionalidade, seja a presença nas ruas ou nas ações — concluiu o porta-voz da PM.


(Por:Extra.Globo.com)

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