Resta no imaginário popular que a figura do juiz é aquele “homem da
capa preta”, um profissional severo, inflexível e fechado em si.
Agora
imagine um magistrado que tem como uma das premissas a proteção dos
direitos humanos, critica fortemente as desigualdades e é escritor de
crônicas, poesias e romances. Membro do Tribunal de Justiça do Rio
Grande do Norte (TJ-RN) desde o início da década passada, Rosivaldo
Toscano Júnior é representante da ideia de uma magistratura mais
humanizada.
// Formado pela UFRN, Toscano Júnior é doutorando com a tese de “Guerra ao crime e os crimes da guerra”
“Por
trás da magnificência de uma toga há, na essência, sempre, um homem,
igual a qualquer outro, repleto de anseios, angústias, esperanças e
sonhos”, define, em uma rede social.
Formado em
direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre
pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do
Sul, Toscano Júnior resolveu fazer seu doutorado em Ciências Jurídicas
na Federal da Paraíba (UFPB) na área de inclusão social, proteção e
defesa dos Direitos Humanos. A tese do magistrado é intitulada “Guerra
ao crime e os crimes da guerra”.
“A formação do
bacharel em direito é muito dogmática. Embora estudar o direito posto
seja essencial na formação profissional, é primordial entender o
contexto em que está inserido. Da mesma forma, compreender a sociedade
em que vive e as razões de poder subjacentes a todos os fatos jurídicos
com que ele se depara. Acho primordial a quem atua na área do direito
ter uma formação humanística mais aprofundada, isso facilita o
desenvolvimento do seu senso crítico e o torna um jurista melhor”,
avalia Rosivaldo.
O estudo do juiz na área dos
direitos humanos diferencia a violência criminal, como os crimes contra o
patrimônio (homicídios, roubos, furtos), e a violência naturalizada
(falta de saúde, educação, transporte público).
// Audiência de custória, iniciada por Rosivaldo, foi oficializada no estado pelo ministro Lewandowski
Na
visão de Toscano, a ideia de combate ao crime com uma guerra provoca
dentro da sociedade, por conseguinte, todas as conseqüências reais de
uma guerra.
“A visão de violência que as pessoas
comumente têm se relaciona aos crimes contra direitos patrimoniais e à
violência física individual. Porém, é importante perceber uma outra
violência, a objetiva, que está naturalizada nas desigualdades sociais e
econômicas, na falta de condições de vida dignas à maior parcela da
população. Da mesma maneira, a questão da guerra ao crime. O crime é um
fenômeno que sempre existiu e sempre existirá. O que devemos ter é uma
ideia de controle, mas jamais uma ideia de guerra, porque leva a uma
inevitabilidade de vítimas, refugiados, mortes”, pontua o juiz.
Toscano Júnior exemplifica essa violência naturalizada no que ele vê diariamente no caminho entre a sua casa e o trabalho.
Ele
é juiz titular da 2ª Vara Criminal do Distrito Judiciário da Zona
Norte, que funciona no Fórum Varella Barca, no conjunto Panatis.
“Vivemos
em uma cidade fraturada por um rio, entre a zona enriquecida e a zona
empobrecida. E digo empobrecida porque apesar do discurso de liberdade,
igualdade e fraternidade, o modo como funciona nossa sociedade empobrece
um contingente imenso de pessoas desde seu nascimento. Até pouco tempo
discutia-se uma reformulação da (Avenida) Roberto Freire, enquanto 350
mil pessoas são atendidas por apenas duas pontes, causando
congestionamentos quilométricos diários”, aponta Toscano.
"Legisnaldo Pena" e o “cidadão de bem”
O
juiz Rosivaldo Toscano é um ávido leitor, admirador do dramaturgo
Bertolt Brecht. Ele usa uma frase do alemão – “Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento. Mas ninguém diz como são violentas as margens que
o reprimem” – como retrato de sua tese que relaciona as violências
objetiva e subjetiva.
O magistrado também é
escritor. Ele já publicou três livros: um de poesias (90, quase 100
poesias), um romance (O Escultor da Alma) e um jurídico (Controle Remoto
e Decisão Judicial – Como se decide sem decidir), que trata da
hierarquização de julgamentos a partir do que se decide no Supremo
Tribunal Federal (STF).
E dentre as aventuras
literárias do juiz destaca-se a criação da personagem Legisnaldo Pena,
que ilustra a série “Paradoxos Penais”. Legisnaldo é um estudante de
direito “com propensões para o cometimento de crimes”.
“Só tem um problema: anda sempre com um
Vade Mecum embaixo do braço e, por isso, ao consultá-lo, depara-se com
as contradições e paradoxos do sistema”, relata Rosivaldo nos seus
textos.
O juiz considera que os textos, todos eles
publicados em sites e blogs, são uma forma de aproximar o leigo com o
mundo do direito. “A figura de Legisnaldo é uma forma pedagógica de
mostrar como sistema penal é excludente dos empobrecidos”, explica
Toscano.
Em um dos textos da série Paradoxos
Penais, Legisnaldo Pena se envolve em um caso de atropelamento ao cruzar
um sinal vermelho, pois estava olhando o celular, e atingir um
pedestre.
Ele prontamente vai consultar seu Vade
Mecum e atesta que há uma contradição no caso de atropelamento a se
analisar entre um crime de trânsito e lesão corporal.
“Ele
vê que é melhor dizer que o atropelamento foi por querer do que
confirmar que foi sem querer, porque uma lesão corporal leve intencional
tem uma punição menor do que uma lesão corporal sem querer cometida no
trânsito. Ao relatar estes casos eu procuro evitar o juridiquês. Quero
estimular o cidadão a ler e a compreender como a lei trata as pessoas do
andar de cima e do andar de baixo e como há leis feitas sem nenhuma
lógica”, completa ele.
Como exemplo deste
tratamento diferenciado ele aponta um caso que tratou recentemente. Um
homem recebeu um portão para consertar, mas após o cliente ter demorado a
resgatar o objeto ele terminou vendendo, configurando crime de
apropriação indébita.
A vítima prestou queixa e o
caso foi à Justiça. No entanto, ainda antes de qualquer audiência a
vítima recebeu o pagamento de um novo portão.
“Se
é um empresário que tivesse sonegado milhões e faz esse ressarcimento, o
processo é rasgado na mesma hora. Já esse processo do portão não, a
ação continua. Aplico o princípio da isonomia de tratamento: se a lei
diz no momento em que um grande sonegador paga extingue a punibilidade,
no caso de um cidadão comum que reparou o dano do portão, porque é que
ele vai ter que ser punido se nem a vítima deseja mais?”, pondera.
Para
Rosivaldo, também é válida, dentro deste contexto, uma avaliação sobre o
dito “homem de bem”. “O ‘homem de bem’ se diz pacato numa sociedade
violenta, mas aplaude linchamentos; se diz honesto numa sociedade
corrupta, mas viaja ao exterior, compra além da cota e não declara à
Receita. Quem é mesmo esse homem de bem?”, questiona o magistrado.
Ele
considera que é preciso a sociedade passar a assumir culpa dos
problemas sociais e não apenas apontar o Estado como culpado.
“A
realidade que vivemos, de injustiça e desigualdade, também tem
contribuição nossa. Nós temos que reduzir desigualdades, não há outro
caminho para reduzir a violência pessoal e patrimonial. Temos que
assumir nossa culpa na formação desse estado de coisas e não atribuí-la
somente ao Estado”, pontua.
A lei aplicada para todos
O
posicionamento humanista/humanizado de Rosivaldo Toscano não fica
apenas na retórica. Ele se traduz nas sentenças. Dois casos exemplificam
a transmutação do discurso em ação.
O primeiro
diz respeito a um primo, dependente químico, que roubou o aparelho de
DVD de outro primo para trocar por drogas. Quando foi descoberto, no
outro dia conseguiu devolver o aparelho. No entanto, àquela altura a
vítima já tinha prestado queixa junto à Polícia Civil.
“A
vítima veio para a audiência e fez um escarcéu, não queria que o
processo continuasse porque tudo já tinha se resolvido entre eles. Dei a
sentença e absolvi o rapaz, a partir do princípio da igualdade, porque
se esse primo fosse um empresário sonegando impostos e que depois
pagasse o débito, a lei impediria o processo criminal. E é comum, nesses
casos sem violência pessoal e sem prejuízo, que a vítima já venha a
contragosto para a audiência. Terminamos ‘revitimizando’ a vítima pela
perda de tempo e dinheiro em um caso já resolvido”, ressalta.
A
partir desse exemplo, o juiz critica o que chama de “discurso
eficenticista” que busca um judiciário que julgue cada vez mais. “As
pessoas buscam o judiciário em face da falência do Estado. E falência é
tão grande, que as demandas são muito grandes e o Judiciário não
consegue dar conta. Temos os juízes que mais julgam no mundo, mas mesmo
assim não vamos dar conta. Precisamos de uma sociedade que sonegue menos
direitos, para ter uma litigiosidade menor, senão serão só soluções
paliativas que nunca conseguem resolver o problema”, analisa.
Durante
a passagem por Mossoró, há uma década, Toscano se viu diante de uma
alta demanda. Como saída, resolveu gravar audiências em vídeo. Na época
não existia legislação que regulamentasse, o que só viria anos depois.
Já
em Natal, há quatro anos resolveu implantar o sistema de audiência de
apresentação – hoje batizado de “audiência de custódia – na 2ª Vara
Criminal da Zona Norte. “É importante buscar novos caminhos e quebrar
paradigmas. Mostrar que é possível fazer diferente”, completa
Baseado
na Convenção Americana Sobre Direitos Humanos, incorporada ao
ordenamento jurídico brasileiro desde 1992, Rosivaldo passou a receber
os presos logo após a prisão, enfrentando então a resistência do
Ministério Público.
“O contato pessoal com o
detido nos dá informações importantes que a frieza dos documentos não
passa. Deparei-me com situações de ter soltado a pessoa por conta da
audiência. Em uma delas utilizei o Google Street View. O preso não
lembrava de algum telefone, mas deu endereço. Pelo Google encontrei um
estabelecimento e confirmei que ele morava no endereço informado. Fiz
uma foto, relatei a situação e concedi liberdade provisória a uma pessoa
que poderia ficar presa apenas por uma questão burocrática”, relembra.
Ele
diz que não enfrenta problemas pelos posicionamentos. “Às vezes há
certo estranhamento, porque fujo do convencional. A pessoa pode
discordar de uma decisão, mas não vai dizer que não tem fundamento. Não
espero que concordem comigo, espero ser respeitado”, finaliza.
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