domingo, 27 de dezembro de 2015

Prova de sangue vai identificar mortos e desaparecidos

DITADURA MILITAR

Trinta anos se passaram desde o final da ditadura civil-militar (1964-1985) do Brasil e ainda restam dúvidas sobre o paradeiro de 434 militantes políticos, dos quais, pelo menos dois são potiguares: Luiz Ignácio Maranhão Filho e Hiram Pereira de Lima. Por essa razão, familiares dessas vítimas doaram material genético para ampliar um banco de DNA da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Gabinete da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O banco facilitará as investigações sobre as circunstâncias das mortes e localização dos restos mortais das vítimas. 
 
No final de novembro, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, criada em 1995, retomou o trabalho investigativo e iniciou pelo Nordeste a coleta de sangue de familiares. Em Natal, fez contato e visitou em casa as famílias Maranhão e Pereira. Assim fará por todo o país.
 
A coordenadora substituta da Comissão Especial, Cristina Schein, explica que o trabalho, além do valor histórico, é também uma forma de reparação às vítimas e aos familiares por dar o direito de enterrar os seus mortos até agora desaparecidos. Ademais, trata-se de revigorar a democracia. Segundo ela, o legado deixado pelo período ditatorial não está apenas nas lutas de classes, está presente também no Estado, que continua repressor. 
 
 
De acordo com Cristina Schein, ao se aprofundar no estudo sobre mecanismos de repressão do passado é possível entender melhor o quanto algumas práticas ainda são legadas no presente, por meio da política vigente no Estado brasileiro. 
 
“Milhares de jovens desaparecem anualmente nas mãos do Estado. Culturas repressivas que ainda possuem a mesma lógica e a mesma estrutura daquelas da ditadura militar. Fazer esse debate é garantir o fortalecimento da democracia”, diz, referindo-se à violência cometidas por instituições do Estado e “que atingem principalmente a juventude pobre, negra, periférica”.
 
O arquiteto Haroldo Maranhão, sobrinho neto de Luiz Ignácio e do ex-prefeito de Natal Djalma Maranhão, participou da coleta junto com sua mãe, Maria Ângela, 80,  sobrinha do desaparecido.  
 
 
“Com a redemocratização do país, o Estado brasileiro assumiu a responsabilidade pela morte de Luiz, tendo emitido uma certidão de óbito, mas sem esclarecer as circunstâncias da morte ou local onde está o corpo. Tem apenas um número, um código indecifrável de um cadáver insepulto”, explica Haroldo Maranhão.
 
Para ajudar a resgatar a história de Hiram Pereira, suas quatro filhas - Nadja e Zodja, Hânya e Sacha - também doaram amostras de sangue. A musicista Sacha Lídice diz reconhecer a importância do trabalho que vem sendo realizado pela comissão para a História, pois “resgata a verdade dos fatos”. Mas ela não guarda grandes expectativas com relação ao trabalho da Comissão. 
 
“Enquanto filha, ossos não têm mais sentido. O que tem sentido é a história dele, o legado que me deixou, uma consciência social que sempre dirige meus passos e minha prática de vida, interesse da coletividade, uma coisa muito maior que faz parte da luta dele e da opção política e filosófica marxista”, ressalta Sacha, afirmando que para ela isso é tudo e que apesar de não ser militante política, considera-se uma cidadã responsável que tenta conscientizar os que estão à sua volta.  
 
Filha de Hiram Pereira, Sacha Lídice conta que já havia participado de trabalho semelhante há cinco ou seis anos. “Eles sabem como nos achar. Daquela vez me notificaram e eu fui para o laboratório que estava autorizado. Agora estão refazendo pessoalmente nas casas das pessoas”.
 
 
Material genético será comparado a ossadas de valas clandestinas
 
O material genético será comparado com ossadas encontradas em vala clandestina do Cemitério de Perus, zona norte de São Paulo, onde foram encontrados mais de mil corpos sem identificação. No local, 42 nomes ligados à matança da ditadura são procurados.
 
Segundo a coordenadora substituta da comissão especial, Cristina Schein, o trabalho deve ser concluído em 2017. A Secretaria de Direitos Humanos do governo federal informou que até o momento, foram analisadas 311 caixas de um total de 1.049 que contém restos mortais. Algumas delas, com mais de um indivíduo. O número de corpos ainda não é preciso.
 
“Para acelerar o andamento dos trabalhos, o laboratório de arqueologia e antropologia forense - no qual as ossadas de Perus são analisadas - está em processo de ampliação”, avisou, em nota.
 
Construído pela Prefeitura de São Paulo em 1970, durante gestão de Paulo Maluf, o Cemitério Municipal Dom Bosco, no Distrito de Perus, em sua inauguração foi transformado em território exclusivo para corpos de indigentes, entre os quais passaram a ser enviados cadáveres de vítimas do regime.
 
Em 1975, duas quadras de indigentes foram exumadas sob pretexto de cremação. Com impedimentos legais, o projeto da Prefeitura e do IML (Instituto Médico Legal) foi abandonado no ano seguinte. Assim, as ossadas ficaram amontoadas para então serem jogadas em vala comum e clandestina do cemitério.
 
Lá, as caixas ficaram até 1990, quando a vala foi aberta e investigada. Agora, um grupo de peritos trabalha sobre as ossadas, fazendo estudos antropométricos, que determinam a provável idade, sexo, altura e outras informações que permitam  sua identificação. 
 
Em seguida, amostras ósseas serão submetidas a exames genéticos para cruzamento com os dados dos familiares doadores. A partir desses exames será possível informar os resultados sobre a identificação dos desaparecidos.
 
Buscas têm sido feitas em outros lugares. O maior número de desaparecidos está concentrado na região do Araguaia, no Norte do país, onde são procurados 61 mortos e desaparecidos. As buscas seguem também em cemitérios do Rio de Janeiro, e Foz do Iguaçu.
 
Resgaste das histórias de corpos 
 
De três militantes do movimento de esquerda do Rio  Grande do Norte, presos, torturados e assassinados pela ditadura civil-militar brasileira, dois ainda  são tidos como desaparecidos. Hiram de Lima Pereira e Luiz Ignácio Maranhão Filho têm apenas local de nascimento. Seus corpos são memórias porque ainda não foram encontrados. Somente o corpo de Emmanoel Pereira dos Santos foi encontrado e enterrado por familiares. Abaixo, o resumo da história de cada um deles. 
 
Hiram de Lima Pereira (1913 –status: desaparecido)
 
 
Nascido em Caicó (RN), Hiram era dirigente do PCB. Foi preso pelos órgãos de segurança em 15 de janeiro de 1975, e está desaparecido desde então. 
 
O ex-sargento do Exército Marival Chaves revelou que o militante político foi interrogado no centro de torturas e execuções implantado clandestinamente pelo DOI-Codi (Destacamento de Operações Internas - Centro de Operações de Defesa Interna ) em Itapevi, São Paulo. Morreu sob torturas e o seu corpo foi lançado em um rio próximo a Avaré.
 
No Arquivo do Dops/PR, foi encontrado o nome de Hiran em uma gaveta com a identificação: “falecidos”.
 
Luiz Ignácio Maranhão Filho (1921- status: desaparecido)
 
 
Natalense e irmão do ex-prefeito de Natal Djalma Maranhão, também militante, deposto e exilado, Luiz Maranhão chegou a ser deputado estadual pelo PTN em 1958.
 
Foi advogado, professor do Atheneu Norteriograndense, da Fundação José Augusto e da UFRN, além de jornalista.
 
Foi capturado no dia 03 de abril de 1974 numa praça em São Paulo, capital. Segundo relatos dos que ali estavam, ele foi algemado e conduzido num transporte de presos pelos agentes do DOI-CODI do II Exército. 
 
Em 1995, seu nome consta da primeira relação dos mortos e desaparecidos políticos, tendo a União reconhecido sua responsabilidade pela morte desses militantes.
 
Emmanuel Bezerra dos Santos (1943-1973)
 
O corpo de Emmanoel Bezerra dos Santos  foi encontrado no Cemitério de Perus em 1992, dezenove anos depois de ter sido morto pela ditadura. Trasladado para o RN  no mesmo ano, o corpo foi sepultado em Caiçara, município de São Bento do Norte, onde nasceu. 
 
Líder estudantil no Colégio Atheneu e na Fundação José Augusto, onde cursou Sociologia, foi presidente da Casa dos Estudantes de Natal. Organizou a ida de potiguares ao Congresso da UNE (1968), em Ibiúna (SP), onde foi preso. 
 
Solto, ingressou no PCR e viveu clandestino em PE e AL. Em agosto/73 foi novamente preso e torturado em Recife. Levado para SP, foi mais uma vítima fatal da repressão.
 

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