Trinta anos se passaram desde o final da ditadura civil-militar
(1964-1985) do Brasil e ainda restam dúvidas sobre o paradeiro de 434
militantes políticos, dos quais, pelo menos dois são potiguares: Luiz
Ignácio Maranhão Filho e Hiram Pereira de Lima. Por essa razão,
familiares dessas vítimas doaram material genético para ampliar um banco
de DNA da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do
Gabinete da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O
banco facilitará as investigações sobre as circunstâncias das mortes e
localização dos restos mortais das vítimas.
No
final de novembro, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos
Políticos, criada em 1995, retomou o trabalho investigativo e iniciou
pelo Nordeste a coleta de sangue de familiares. Em Natal, fez contato e
visitou em casa as famílias Maranhão e Pereira. Assim fará por todo o
país.
A coordenadora substituta da Comissão
Especial, Cristina Schein, explica que o trabalho, além do valor
histórico, é também uma forma de reparação às vítimas e aos familiares
por dar o direito de enterrar os seus mortos até agora desaparecidos.
Ademais, trata-se de revigorar a democracia. Segundo ela, o legado
deixado pelo período ditatorial não está apenas nas lutas de classes,
está presente também no Estado, que continua repressor.
De acordo com Cristina Schein, ao se
aprofundar no estudo sobre mecanismos de repressão do passado é possível
entender melhor o quanto algumas práticas ainda são legadas no
presente, por meio da política vigente no Estado brasileiro.
“Milhares
de jovens desaparecem anualmente nas mãos do Estado. Culturas
repressivas que ainda possuem a mesma lógica e a mesma estrutura
daquelas da ditadura militar. Fazer esse debate é garantir o
fortalecimento da democracia”, diz, referindo-se à violência cometidas
por instituições do Estado e “que atingem principalmente a juventude
pobre, negra, periférica”.
O arquiteto Haroldo Maranhão,
sobrinho neto de Luiz Ignácio e do ex-prefeito de Natal Djalma Maranhão,
participou da coleta junto com sua mãe, Maria Ângela, 80, sobrinha do
desaparecido.
“Com a redemocratização do país, o Estado
brasileiro assumiu a responsabilidade pela morte de Luiz, tendo emitido
uma certidão de óbito, mas sem esclarecer as circunstâncias da morte ou
local onde está o corpo. Tem apenas um número, um código indecifrável de
um cadáver insepulto”, explica Haroldo Maranhão.
Para
ajudar a resgatar a história de Hiram Pereira, suas quatro filhas -
Nadja e Zodja, Hânya e Sacha - também doaram amostras de sangue. A
musicista Sacha Lídice diz reconhecer a importância do trabalho que vem
sendo realizado pela comissão para a História, pois “resgata a verdade
dos fatos”. Mas ela não guarda grandes expectativas com relação ao
trabalho da Comissão.
“Enquanto filha, ossos não
têm mais sentido. O que tem sentido é a história dele, o legado que me
deixou, uma consciência social que sempre dirige meus passos e minha
prática de vida, interesse da coletividade, uma coisa muito maior que
faz parte da luta dele e da opção política e filosófica marxista”,
ressalta Sacha, afirmando que para ela isso é tudo e que apesar de não
ser militante política, considera-se uma cidadã responsável que tenta
conscientizar os que estão à sua volta.
Filha de
Hiram Pereira, Sacha Lídice conta que já havia participado de trabalho
semelhante há cinco ou seis anos. “Eles sabem como nos achar. Daquela
vez me notificaram e eu fui para o laboratório que estava autorizado.
Agora estão refazendo pessoalmente nas casas das pessoas”.
Material genético será comparado a ossadas de valas clandestinas
O
material genético será comparado com ossadas encontradas em vala
clandestina do Cemitério de Perus, zona norte de São Paulo, onde foram
encontrados mais de mil corpos sem identificação. No local, 42 nomes
ligados à matança da ditadura são procurados.
Segundo
a coordenadora substituta da comissão especial, Cristina Schein, o
trabalho deve ser concluído em 2017. A Secretaria de Direitos Humanos do
governo federal informou que até o momento, foram analisadas 311 caixas
de um total de 1.049 que contém restos mortais. Algumas delas, com mais
de um indivíduo. O número de corpos ainda não é preciso.
“Para
acelerar o andamento dos trabalhos, o laboratório de arqueologia e
antropologia forense - no qual as ossadas de Perus são analisadas - está
em processo de ampliação”, avisou, em nota.
Construído
pela Prefeitura de São Paulo em 1970, durante gestão de Paulo Maluf, o
Cemitério Municipal Dom Bosco, no Distrito de Perus, em sua inauguração
foi transformado em território exclusivo para corpos de indigentes,
entre os quais passaram a ser enviados cadáveres de vítimas do regime.
Em
1975, duas quadras de indigentes foram exumadas sob pretexto de
cremação. Com impedimentos legais, o projeto da Prefeitura e do IML
(Instituto Médico Legal) foi abandonado no ano seguinte. Assim, as
ossadas ficaram amontoadas para então serem jogadas em vala comum e
clandestina do cemitério.
Lá, as caixas ficaram
até 1990, quando a vala foi aberta e investigada. Agora, um grupo de
peritos trabalha sobre as ossadas, fazendo estudos antropométricos, que
determinam a provável idade, sexo, altura e outras informações que
permitam sua identificação.
Em seguida, amostras
ósseas serão submetidas a exames genéticos para cruzamento com os dados
dos familiares doadores. A partir desses exames será possível informar
os resultados sobre a identificação dos desaparecidos.
Buscas
têm sido feitas em outros lugares. O maior número de desaparecidos está
concentrado na região do Araguaia, no Norte do país, onde são
procurados 61 mortos e desaparecidos. As buscas seguem também em
cemitérios do Rio de Janeiro, e Foz do Iguaçu.
Resgaste das histórias de corpos
De
três militantes do movimento de esquerda do Rio Grande do Norte,
presos, torturados e assassinados pela ditadura civil-militar
brasileira, dois ainda são tidos como desaparecidos. Hiram de Lima
Pereira e Luiz Ignácio Maranhão Filho têm apenas local de nascimento.
Seus corpos são memórias porque ainda não foram encontrados. Somente o
corpo de Emmanoel Pereira dos Santos foi encontrado e enterrado por
familiares. Abaixo, o resumo da história de cada um deles.
Hiram de Lima Pereira (1913 –status: desaparecido)
Nascido em Caicó (RN), Hiram era
dirigente do PCB. Foi preso pelos órgãos de segurança em 15 de janeiro
de 1975, e está desaparecido desde então.
O ex-sargento do
Exército Marival Chaves revelou que o militante político foi interrogado
no centro de torturas e execuções implantado clandestinamente pelo
DOI-Codi (Destacamento de Operações Internas - Centro de Operações de
Defesa Interna ) em Itapevi, São Paulo. Morreu sob torturas e o seu
corpo foi lançado em um rio próximo a Avaré.
No Arquivo do Dops/PR, foi encontrado o nome de Hiran em uma gaveta com a identificação: “falecidos”.
Luiz Ignácio Maranhão Filho (1921- status: desaparecido)
Natalense e irmão do
ex-prefeito de Natal Djalma Maranhão, também militante, deposto e
exilado, Luiz Maranhão chegou a ser deputado estadual pelo PTN em 1958.
Foi advogado, professor do Atheneu Norteriograndense, da Fundação José Augusto e da UFRN, além de jornalista.
Foi
capturado no dia 03 de abril de 1974 numa praça em São Paulo, capital.
Segundo relatos dos que ali estavam, ele foi algemado e conduzido num
transporte de presos pelos agentes do DOI-CODI do II Exército.
Em
1995, seu nome consta da primeira relação dos mortos e desaparecidos
políticos, tendo a União reconhecido sua responsabilidade pela morte
desses militantes.
Emmanuel Bezerra dos Santos (1943-1973)
O corpo de Emmanoel Bezerra dos Santos foi
encontrado no Cemitério de Perus em 1992, dezenove anos depois de ter
sido morto pela ditadura. Trasladado para o RN no mesmo ano, o corpo
foi sepultado em Caiçara, município de São Bento do Norte, onde nasceu.
Líder
estudantil no Colégio Atheneu e na Fundação José Augusto, onde cursou
Sociologia, foi presidente da Casa dos Estudantes de Natal. Organizou a
ida de potiguares ao Congresso da UNE (1968), em Ibiúna (SP), onde foi
preso.
Solto, ingressou no PCR e viveu clandestino em PE e
AL. Em agosto/73 foi novamente preso e torturado em Recife. Levado para
SP, foi mais uma vítima fatal da repressão.
por: Isabela Santos/NOVO
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