
O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (Reprodução/ Instagram/ Valter Campanato/ Valter Campanato/Agência Brasil/VEJA)
Candidata a deputada estadual pelo PSL nas últimas eleições, a professora aposentada Cleuzenir Barbosa
declarou que o partido promoveu um esquema de lavagem de dinheiro
público em Minas Gerais, que na época tinha o diretório regional
presidido pelo hoje ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. Segundo depoimento de Barbosa para o jornal Folha de S. Paulo, o ministro do governo Jair Bolsonaro sabia das operações.
O suposto caso de Cleuzenir Barbosa seria mais uma “candidatura laranja” da legenda, como outras denunciadas em Minas Gerais e Pernambuco. Presidente nacional do PSL interinamente durante as eleições e um dos suspeitos de ligação com os desvios, Gustavo Bebianno foi exonerado nesta segunda-feira do cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.
Cleuzenir, que diz não ter aceitado
integrar o esquema, não foi eleita (teve 2.097 votos) e hoje vive em
Portugal. Disse ter deixado o Brasil por temor de retaliações por parte
dos aliados de Álvaro Antônio.
O esquema de desvio
A professora aposentada conta que, dos 60
mil reais que recebeu do fundo eleitoral para sua candidatura, um valor
de 50 mil reais deveria ser devolvido para assessores de Álvaro
Antônio. Ela conta que comunicou a situação a outros membros da equipe
do hoje ministro e tentou denunciar o caso diretamente para ele, mas que
nada foi feito.
“Era o seguinte: nós mulheres
iríamos lavar o dinheiro para eles. Esse era o esquema. O dinheiro viria
para mim e retornaria para eles. 10 mil foi o que me falaram que eu
poderia ficar, foi aí que eu vi que tinha erro. Eles falaram que eu
poderia fazer o que eu quisesse. Onde já se viu isso?”, relatou a
ex-candidata.
Na entrevista, ela diz que se filiou ao PSL por influência de Enéias Reis, deputado suplente de Álvaro Antônio.”ele
[Enéias Reis] estava indo para Brasília e nós fomos. Bolsonaro nos
recebeu, Marcelo também. E aí veio o convite para me filiar no PSL. Jair
fez um vídeo pedindo apoio para a minha candidatura. Até então, estava
tudo correndo dentro do script. Não foi falado em dinheiro, só de apoio”.
A ex-candidata diz que soube dos desvios apenas quando o dinheiro caiu em sua conta.
“Quem ficou responsável pela minha região
foi o Haissander de Paula [assessor do ministro], que começou a falar
que ia vir um dinheiro. Ele falava que o Marcelo [ministro] estava muito
apertado, coitadinho, e que a mãe ia doar um dinheiro pra campanha
dele. Era uma história comovente. Que precisava ajudar outros candidatos
com esse dinheiro”, explica Barbosa.
“Falaram que a mãe do Marcelo mandaria na
minha conta 50 mil reais. E que eu poderia contratar pessoas, que viria
o dinheiro da mãe do Marcelo, para fazer a campanha. Quando caiu na
minha conta, falei: caiu o dinheiro, mas não sei a origem, preciso ver.
Quando ligo pro Robertinho [Soares, outro assessor] falo que não é
dinheiro do fundo da mulher nem da mãe do Marcelo. Ele respondeu: é o
mesmo. Aí quando ele falou isso, caiu a ficha”, completa.
Cleuzenir Barbosa diz que teve que viajar para o exterior após fazer as denúncias sobre o esquema: “peço
para as mulheres que denunciem. Não fiquem caladas, se exponham, sim.
Eu vou entrar com pedido de proteção à vítima. Esse povo é perigoso.
Hoje eu sei, eles são uma quadrilha de bandidos”.
O Ministério Público de Minas Gerais
expediu, nesta segunda-feira 18, intimações para ouvir 20 pessoas em
inquérito que investiga o caso dela e outras supostas “laranjas” do PSL
no Estado – todas candidatas mulheres.
Os depoimentos serão prestados a partir desta semana. Em contato com o jornal O Estado de S. Paulo, o promotor eleitoral Fernando Abreu, responsável pelo caso, declarou que o inquérito pode evoluir para uma investigação sobre a ocorrência do crime de lavagem de dinheiro.
“A primeira coisa a fazer é certificar a
existência dos candidatos laranja. Se essas pessoas receberam ou não os
recursos e se gastaram em suas campanhas, se houve apropriação indébita
de recursos públicos e falsidade ideológica. Depois, pode ser que se
evolua para lavagem de dinheiro”, disse o promotor. Entre os intimados,
estão candidatos, empresários e possíveis colaboradores de Marcelo
Álvaro durante a campanha – só depois será definido se o ministro também
prestará depoimento”, disse.
Outro lado
O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro
Antônio (PSL-MG), afirmou que tomou conhecimento da denúncia por
lideranças partidárias e que determinou sua apuração.
“A denunciante foi chamada a prestar
esclarecimentos em diversas ocasiões e nunca apresentou provas ou
indícios que atestassem a veracidade das acusações”, disse.
Ele também afirmou que Cleuzenir não tem
credibilidade por ter sido “aposentada por sentença judicial que
reconheceu distúrbios psiquiátricos incapacitantes total e permanentes”.
Ele também disse que ela repassou a familiares dinheiro da campanha e
que fez elogio público a ele um dia antes de registrar o boletim de
ocorrência.
Robertinho Soares, assessor do ministro,
disse que “nunca houve nenhuma ameaça à senhora Cleuzenir”. Ele também
afirmou que ela se contradisse em suas acusações. Haissander de Paula
não se pronunciou para o jornal Folha de S. Paulo.
(via:Folha de S. Paulo)
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