
Padre Bonifácio Buzzi é acusado de ter abusado de criança de dez anos (VEJA)
O padre ganhou liberdade no ano passado após cumprir um sexto da pena e seguiu para a cidade de Três Corações, onde fez novas vítimas. Na lei divina, a punição aplicada a Buzzi foi bem mais branda. O salário de 2 800 reais foi cortado pela Igreja Católica, mas ele nunca teve as funções sacerdotais totalmente revogadas pelo Vaticano, onde responde a um processo canônico que ainda não foi concluído. Com uma carta de recomendação em mãos feita pela Arquidiocese de Juiz de Fora, o religioso conseguiu se recolocar na Associação Comunidade Evangelizadora Magnificat, no quilômetro 88 da Rodovia MG-167, no Sul de Minas. A entidade diz em seu site que usa o poder da eucaristia para evangelizar. Lá, Buzzi rezava missa no altar da instituição, ocupava um dos quartos, fazia refeições com outros padres e também era escalado fazer celebrações religiosas em comunidades carentes da zona rural.
O padre não estava em casa no momento da prisão, ocorrida às 11h45. O delegado Pedro Paulo Marques, da Polícia Civil de Minas, viu que havia uma placa de “vende-se” no muro e ligou como se estivesse interessado no imóvel. Meia hora depois o padre chegou para negociar usando uma bicicleta. Ao receber voz de prisão, exclamou “Ai meu Deus” três vezes. Jurou que é inocente e disse aos investigadores que vai rezar mais. Buzzi foi levado de Joinville para o presídio de Três Corações.
De acordo com o depoimento do seminarista Heverton Cesar Peixoto, que atua na mesma comunidade, Buzzi era convidado por outros padres para celebrar missas e esses mesmos sacerdotes faziam uma espécie de vaquinha para pagar um salário a ele. Segundo a delegada Ana Paula Gontijo, que comandou as investigações, o acusado se aproveitava do fato de atuar em um lugar distante para passar despercebido, já que o seu currículo de criminoso é conhecido. “Ele também pregava em escolas, centro comunitários e na casa de famílias católicas e recebia ajuda financeira da comunidade”, diz a delegada.
O juiz Tarciso Moreira de Souza decidiu pedir a prisão do padre depois que leu o depoimento da vítima e de sua mãe. Segundo o menino relatou, o padre levou ele e dois amigos para uma pescaria por duas vezes. Ao chegar à beira do riacho, Buzzi dizia às crianças que havia esquecido de levar as minhocas que serviriam de isca e pedia que os dois amigos da vítima fossem atrás. Quando ficou a sós com o menino de 10 anos, Buzzi baixou a bermuda do garoto com a desculpa que iria procurar carrapatos em seu órgão sexual. Nas palavras do menino, “o padre botava a boca no seu pênis ao mesmo tempo que introduzia o dedo em seu anus”. A vítima disse ainda que Buzzi deu a ele uma lanterna e uma nota de dez reais para que não relatasse a prática sexual à sua mãe.
Na delegacia, a mãe do menino disse que já desconfiava – mas não queria acreditar – que o padre vinha abusando sexualmente do seu filho, pois era comum Buzzi ficar na sala assistindo televisão com o menino sentado em seu colo. Em uma das ocasiões, segundo depoimento da mãe, o padre estava deitado na cama com o menino embaixo de um cobertor. “Não imaginava que ele abusava do meu filho porque ele é padre e frequentava a minha casa para levar a palavra de Deus”, disse a mãe, que não quis ser identificada.
Ela contou que só procurou a polícia depois que uma vizinha lhe mostrou um exemplar de VEJA que denuncia a prisão do padre Fabiano, na qual Buzzi é citado. A partir dessa denúncia, a polícia grampeou o telefone do padre com autorização judicial e passou a monitorá-lo, usando inclusive um sistema de rastreamento pelo celular que indica em tempo real o local exato onde ele se encontra.
Buzzi é o segundo padre que foi parar atrás das grades denunciado por abuso sexual de vulnerável em menos de dois meses. Em junho, o pároco de Frutal (MG), Fabiano Gonzaga, foi preso em flagrante na cidade de Caldas Novas (GO) depois de forçar um menino de 15 anos a fazer sexo oral nele dentro da sauna de um clube.
O padre foi preso às 11h45 por uma equipe comandada pelo delegado Pedro Paulo Marques, da Polícia Civil de Minas, em Joinville.
Por Ullisses Campbell/Veja
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