terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Violência acaba com a onda de Ronaldo

QUE ONDA É ESSA MERMÃO?
Permanece sob investigação da Delegacia Especializada de Homicídios (Dehom) a morte de Ronaldo Cordeiro de Morais, de 18 anos. O jovem que ficou famoso na internet depois de popularizar o bordão “Que onda é essa?” foi executado a tiros no sábado, na frente da casa onde morava, no bairro das Quintas.
 
De acordo com os agentes da Dehom, a equipe de plantão da Especializada foi até o local de crime colher as primeiras investigações e, até a tarde de ontem, ainda ia definido para qual delegado seria distribuído o caso. 
 
 
Ronaldo foi sepultado na manhã de ontem, no Cemitério Bom Pastor II. O corpo foi enterrado na mesma cova em que o seu irmão do meio, Rogério Cordeiro de Morais, morto atropelado em 2010 pela vítima de um assalto que ele mesmo cometeu.
 
Segundo os funcionários do cemitério, não havia tanta gente no sepultamento, contudo todos os que foram acompanhar a cerimônia, que foi rápida, estavam bastantes comovidos.
 
Seu Samuel, pai do jovem, falou por telefone com o NOVO, mas não conseguiu conversar muito. Nas poucas palavras que disse, o jardineiro lembrou que o filho mais novo seria homenageado por uma banda, que havia composto uma música utilizando a expressão pela qual Ronaldo ficou conhecido. “Ia ser no mesmo dia”.
 
Ronaldo foi enterrado na mesma cova do irmão que morreu aos 15
 
Após a notícia do homicídio, começou a circular na internet um vídeo em que Ronaldo aparecia com o grupo musical em um estúdio, num momento que parece ser um ensaio ou uma gravação do hit (acesse novojornal.jor.br para assistir ao vídeo). No refrão, o jovem dizia o seu bordão e dava a risada que também se popularizou junto com a frase “Que onda é essa?”.
 
Ronaldo Morais foi assassinado a tiros em frente da própria casa no bairro das Quintas, zona Leste de Natal. O jovem estava acompanhado da companheira e da filha, de apenas sete meses, quando um homem, ainda não identificado, atirou diversas vezes contra ele.
 
Segundo informou a polícia, o autor dos disparos abordou os três e ordenou que Ronaldo se ajoelhasse antes de atirar. Familiares de Ronaldo ainda conseguiram levá-lo ao Hospital Doutor José Pedro Bezerra (Santa Catarina), mas o rapaz já estava morto.
 
Conhecido pelo bordão “Que onda é essa?”, o garoto de apenas de 18 anos ganhou popularidade depois de virar personagem de um programa de televisão, o Patrulha Policial, da TV Ponta Negra.
 
Na reportagem, Ronaldo aparece tratando como brincadeira o fato de estar preso. A primeira postagem do vídeo no Youtube já registra mais de 200 mil visualizações, o que impulsionou a popularidade do jovem infrator.
 
As palavras desconexas de Ronaldo foram replicadas por todo o Brasil. Ronaldo foi detido em agosto do ano passado após ter furtado um desodorante de um grande supermercado da capital potiguar.
 
Nos últimos tempos, o jovem estava vendendo lanches, como ginga com tapioca, nas praias urbanas de Natal.
 
O NOVO contou a história de Ronaldo da edição do dia 17 de janeiro passado. Na ocasião, ele afirmou que havia decidido se afastar da criminalidade e justificou o roubo pelo qual foi preso, quando levou um desodorante de um supermercado atacadista, com a necessidade que sua família passa.
 
O rapaz vinha, segundo os parentes, obtendo bons resultados nas vendas que fazia na praia, por conta de sua popularidade na internet. No entanto não houve tempo de se firmar no novo ofício.
 
O crime da morte de Ronaldo permanece sem elucidação da Especializada de Homicídios. Até ontem, a Polícia Civil ainda não tinha, ao menos oficialmente, informações acerca do suspeito do assassinato.
 
Depois de sábado, Ronaldo Cordeiro perdeu a vida para a violência e deixou de ser o garoto sucesso da internet para entrar para as estatísticas.
 
Ele se enquadra no perfil de pessoas que mais morrem vítimas de homicídio no Rio Grande do Norte: jovem e morador de periferia, assassinado com traços de execução, sem chance de defesa.
 
A onda da violência
 
Por Norton Rafael
 
Não tive qualquer contato com o Ronaldo depois daquele dia 13 de janeiro, quando estive em sua casa. A única pessoa com quem conversei rapidamente após aquela quarta-feira foi com o seu pai, Samuel, que me ligou para falar com alegria que “o Dinho tirou os dentes”, em referência à extração dentária feita por Ronaldo no último dia 14 para instalação de uma prótese.
 
Depois disso, só voltei a ter Ronaldo em pauta no último sábado, quando soube que ele havia sido brutalmente assassinado em frente de sua casa, no bairro das Quintas. A notícia da morte de Dinho, como era carinhosamente chamado por seus familiares, colocou uma pá de cal no meu fim de semana.
 
Não houve um minuto desde então que não pensasse naquele jovem rapaz que, dias atrás, me contava todos os seus planos para o futuro longe do crime e que, sentado em minha frente, dizia que nunca mais faria a sua mãe sofrer.
 
Dona Joana, a mãe de Ronaldo, certamente era a pessoa mais amada por aquele garoto de apenas 18 anos. Era ela quem procurava Ronaldo quando ele saia de casa à noite para usar drogas, cometer furtos ou para fugir de inimigos. Era no ombro de Dona Joana onde Ronaldo deitava o rosto para esconder as lágrimas que teimavam em escorrer dos seus olhos.
 
Em nossa conversa, Ronaldo insistia em dizer que queria dar um futuro melhor para sua mãe. Ver a sua filha de apenas sete meses, a Ariane, crescer saudável e poder dar para aquela pequena uma vida diferente da que ele teve. Construir uma relação harmoniosa com a sua esposa, Francimeire. E, mais importante, abandonar de uma vez por todas o mundo do crime.
 
Ronaldo nasceu e se criou no bairro das Quintas, na zona Leste de Natal. Morou a vida toda espremido em uma pequena casa erguida com muito sufoco entre o mangue e a linha férrea. Sobrevivia com muito pouco, não tinha sequer um banheiro com as condições mínimas de higiene para fazer as suas necessidades. 
 
Ele só pôde estudar até a quarta série, afinal, não havia muita diferença entre o que via na escola e o que vivia nas ruas. Logo deixou de ser aluno para se tornar jovem infrator.
 
Passou por casas de detenção. Pelo sistema penitenciário. Mas não houve sucesso em sua ressocialização.
 
O crime o cercava por todos os lados. Ronaldo entrou num beco sem saída onde nem a força de vontade fez com que ele conseguisse fugir do seu destino.
 
Ronaldo ganhou popularidade após ser personagem de uma reportagem do programa Patrulha da Cidade, da TV Ponta Negra. Ao contrário da maioria dos aprisionados mostrados no programa policial, o seu lado excêntrico e bem humorado se sobressaiu a qualquer estigma de que “bandido bom é bandido morto”. 
 
Dinho esteve muito perto de conseguir ser reinserido na sociedade pelas mãos da sociedade civil. Foi abraçado por muitos, viu muitas mãos serem estendidas em sua direção, mas teve o mesmo fim que muitos jovens como ele têm.
 
Ronaldo Cordeiro de Morais, o Dinho, deixa uma filha, uma esposa, quatro irmãos, 10 sobrinhos, uma mãe e um pai. Talvez poucos chorem a sua morte. Alguns se revoltem. Mas, hoje, ele é apenas mais um pobre que virou estatística.
 
 
 

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