As fortes chuvas registradas no início deste ano não foram
suficientes para reabastecer os reservatórios hídricos do Estado, que
continuam a atingir níveis cada vez mais preocupantes. Até o momento, já
são 11 barragens e açudes completamente secos e outros 14 encontram-se
no chamado “volume morto”, que é quando a vazão não acontece mais de
forma natural e são necessários outros meios para que essa água seja
bombeada e aproveitada para o uso humano.
Essas
informações foram apresentadas em um relatório do Instituto de Gestão
das Águas do Rio Grande do Norte (Igarn), que avaliou a situação de 47
reservatórios com mais de cinco milhões de m³ de água, entre os dias 19 e
21 de março. Além desses dados alarmantes, o documento trouxe outra
previsão ainda mais assustadora.
Caso o quadro não se reverta nos próximos
meses, o maior reservatório potiguar, a Barragem Armando Ribeiro
Gonçalves, pode entrar em colapso até novembro. Localizada na bacia
Piranhas-Açu, ela está hoje com somente 19,81% de sua capacidade total.
Isso representa um volume de 475,4 milhões de m³.
Essa
já é a pior medição registrada na história do reservatório, que
comporta até 2,4 bilhões de m³ de água e nunca havia estado tão seco
antes. De acordo com o diretor presidente do Igarn, Josivan Cardoso
Moreno, a partir do relatório divulgado pelo instituto, estão sendo
elaboradas resoluções que restrinjam o uso da Armando Ribeiro Gonçalves,
preservando o volume já existente e estendendo esse prazo até fevereiro
de 2017.
“Hoje está com essa capacidade restrita e
há uma resolução entre o Igarn e a Agência Nacional de Águas que faz
toda a delimitação de como deve ser usada aquela água. Essa resolução,
que está sendo feita desde o ano passado, é para que possamos ter a
maior quantidade de água suficiente pelo maior tempo permissível”,
explica.
Ainda segundo o diretor, a nova norma
deve ser acompanhada por um serviço de fiscalização. “A ideia é que essa
resolução consiga, dentro do que está sendo pleiteado e junto com todo o
processo de fiscalização, monitoramento e uso restrito, estender o uso
da Armando Ribeiro até fevereiro de 2017”, informa, acrescentando que o
monitoramento da barragem é realizado pela Igarn em parceria com a
Agência Nacional de Águas (ANA). “As simulações feitas pelo
monitoramento já dão conta de que está em situação crítica, abaixo do
volume que precisaria ter”, alerta.
Estado de emergência continua
O
decreto do Governo do Estado, que estabelece situação de emergência em
153 dos 167 municípios potiguares por causa da seca, completa um ano na
próxima segunda-feira (28). As chuvas que foram observadas nesse período
não foram suficientes para abastecer a maioria dos reservatórios e as
cidades continuam sofrendo com a escassez de água nas torneiras.
O
cenário mais preocupante encontra-se no interior, sobretudo nas regiões
do Seridó e do Oeste potiguar. Por lá, a população de Acari, Currais
Novos, Martins e outros 18 municípios ainda dependem de caminhões pipa
ou poços artesanais para ter acesso à água. Além disso, muitas famílias
ainda se veem obrigadas a comprarem garrafões de água mineral, que são
utilizados, inclusive, para necessidades básicas do lar, como lavar
roupa ou louça.
Situações como essa forçaram o
Governo do Estado a renovar o decreto, que inicialmente era válido por
apenas 180 dias, por mais seis meses. Segundo informou o secretário
Mairton França, a renovação aconteceu na últi-ma segunda-feira (21).
“Se
mantiveram os 153 municípios que já estavam no [decreto] anterior e ele
vai valer por mais seis meses. Vamos procurar, a partir disso, fazer
compras de maneira mais ágil para atender a situação de emergência que,
ao que tudo indica, se aprofundará neste ano de 2016”, declara.
Desse
total, 21 cidades estão em colapso total de abastecimento. Há a
previsão de que esse número seja ampliado ainda nesse primeiro semestre,
caso o atual quadro não se modifique.
“Hoje nós
temos 21 municípios em colapso, contando que 20 possuem contrato de
concessão com a Caern e um deles não, que é Alexandria, que tem um
sistema autônomo do Saae. A previsão é que, em julho, outros 27 também
entrem em colapso, chegando a 48 municípios, caso não haja recarga”,
informa Mairton França.
Outros 74 municípios estão
regime de rodízio imposto pela Caern. Eles contam com o abastecimento
limitado e que é interrompido por completo em determinado dias da
semana. Para o titular da SEMARH, somente novas chuvas poderiam aliviar a
situação neste momento crítico.
“Estamos
aguardando as chuvas deste ano. A previsão é que sejam abaixo da média,
mas vamos esperar que elas deem alguma recarga para os reservatórios que
são utilizados por esses municípios”, espera o secretário. A seca
enfrentada pelo RN já é a pior dos últimos 100 anos.
Transposição do Rio São Francisco pode amenizar crise hídrica
Com
o Rio Grande do Norte enfrentando a pior seca do último século, de
acordo com diversos especialistas em clima, o Governo do Estado aposta
na conclusão das obras de transposição do Rio São Francisco para
amenizar os sintomas da estiagem prolongada.
De
acordo com Mairton França, titular da Secretaria Estadual do Meio
Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), as águas do “Velho Chico” devem
chegar primeiro pela região Seridó, uma das mais afetadas com a falta de
abastecimento
“A gente tem hoje uma obra importante, com
93% concluída, que é a transposição do Rio São Francisco. Isso vai
trazer água do São Francisco para o RN através da perenização do Rio
Piranhas. Essa água vai para a Armando Ribeiro Gonçalves e deve, logo de
cara, beneficiar aquela região de Jardim de Piranhas, São Fernando,
Timbaúba e Caicó”, esclarece o secretário.
Segundo
informa, a prioridade é levar água até a cidade de Caicó, uma das mais
populosas do Estado e que está em colapso total desde o ano passado. “A
nossa maior preocupação hoje é exatamente a população de Caicó, que são
62 mil pessoas e que não dá para atender essa quantidade com carros
pipa. Isso é tecnicamente impossível”, pontua.
“A
gente fica nessa expectativa. Para você ter uma ideia, o fluxo de água
do Rio São Francisco será capaz de encher a barragem Armando Ribeiro
Gonçalves quase duas vezes por ano. Então teremos essa condição a mais
de oferta de água, a partir da transposição concluída e a previsão é que
isso aconteça em dezembro”, acrescenta o titular da Semarh.
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