
Laurence Casagrande Lourenço é ex-presidente da Dersa, empresa do governo estadual de São Paulo que atua na construção de rodovias - Reprodução/ TV Globo
São Paulo - A Operação Pedra no Caminho, da Polícia
Federal (PF), realizada nesta quinta-feira, prendeu temporariamente 14
suspeitos de envolvimento em desvios de recursos públicos nas obras do
trecho norte do Rodoanel, em São Paulo. Entre eles, Laurence Casagrande
Lourenço, ex-presidente da Dersa, que é a empresa do governo estadual
que atua na construção de rodovias, além de pessoas ligadas às
empreiteiras envolvidas. Lourenço ocupou a presidência da Dersa e foi
secretário de Logística e Transportes no governo de Geraldo Alckmin.
Atualmente, ele preside a Companhia Energética de São Paulo (Cesp).
Os desvios foram estimados em mais de R$ 600 milhões. Na casa de um dos alvos, a PF apreendeu R$ 100 mil em espécie e US$ 5 mil. O nome do investigado que guardava os valores não foi revelado pela corporação.
Os presos ficarão na sede da PF em São Paulo, à
disposição da Justiça Federal. Segundo a PF, apenas um dos mandados de
prisão não foi cumprido, pois o suspeito estava fora do país. Os presos
vão responder pelos crimes de fraude à licitação, estelionato contra o
poder público, falsidade ideológica e associação criminosa, conforme as
suas participações.
Também foram cumpridos 51 mandados de busca e apreensão
na capital paulista e nas cidades de Carapicuíba, Arujá, Bofete,
Ribeirão Preto e São Pedro, além de Marataízes e Itapemirim, no Espírito
Santo. Cerca de 200 policiais federais participaram da operação.
"Podemos perceber que existe uma sucessão de atos
criminosos dentro da Dersa. Desde desvio de dinheiro, reassentamento a,
agora, superfaturamento. Tudo relacionado ao mesmo convênio com a União,
que destinou R$ 6,4 bilhões", disse Anamara Silva, procuradora da
república com atuação no combate ao crime de corrupção.
Aditivos
Segundo inquérito instaurado em 2016, a investigação
começou com a denúncia de um ex-gerente de uma empreiteira. Ele não
concordava com os desvios de dinheiro e foi exonerado do cargo. A obra
era dividida em seis lotes, sendo que as fraudes eram mais evidentes no
lote sob responsabilidade da Construtora OAS. Outras construtoras
suspeitas de irregularidades são Isolux Corsán, Acciona Infraestruturas e
Construcap.
"Existem, com certeza, indícios fortes de
irregularidades no lote 2, da Construtora OAS, responsável também pelo
lote 3. Nos demais [lotes], também há indícios porque, em todos eles,
percebeu-se a cobrança de remoções de matacões [estruturas rochosas],
que não deveria ter sido pago", disse a procuradora. "É possível dizer
que havia uma sistemática de atuação contrária ao erário público na
Dersa", completou.
As empreiteiras agiam incluindo aditivos aos contratos
para, por exemplo, remoção de formações rochosas, que teriam sido
descobertas durante a terraplanagem. Porém, de acordo com Victor Hugo
Rodrigues Alves, delegado de Polícia Federal e chefe de combate à
corrupção e crimes financeiros, essas rochas já estavam previstas,
inclusive por mapeado em estudos geológicos da década de 60.
Além dos estudos prévios, o Instituto de Pesquisas
Tecnológicas (IPT) realizou novo estudo demonstrando que as rochas que
constavam nos aditivos faziam parte do plano de obras inicial, por isso
os aditivos eram irregulares. As fraudes identificadas na execução da
obra foram apontadas por três órgãos técnicos: a Polícia Federal, a
Controladoria Geral da União e Tribunal de Contas da União.
Planilhas
O delegado regional de investigação e combate ao crime
organizado, Marcelo de Carvalho, disse que outra prática ilegal
observada foi o jogo de planilhas. Segundo ele, funcionários da Dersa
confirmaram que partiu da diretoria da empresa a orientação de alterar
as planilhas, diminuindo os valores de alguns serviços e elevando de
outros com objetivo de reduzir suspeitas.
"Eles reduzem na qualidade para tentar disfarçar o
preço total. E estamos falando de túneis, perder a qualidade de túneis é
prejuízo para a população", disse.
Dersa
Em nota, a Dersa informou que a empresa e o governo de
São Paulo são os maiores interessados no andamento do processo. "Havendo
qualquer eventual prejuízo ao erário público, o Estado adotará as
medidas cabíveis, como já agiu em outras ocasiões", disse.
(Por
Agência Brasil)
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