segunda-feira, 4 de abril de 2016

Rumos da política partidária no RN dependem do futuro do impeachment

FUTURO
 
O momento de conturbação política que o Brasil vive também reflete no Rio Grande do Norte e gera uma nuvem de dúvidas, incertezas e possibilidades quanto às próximas eleições municipais, em outubro, e o pleito de 2018. De acordo com cientistas políticos, detentores de cargos eletivos e observadores da cena local, os acontecimentos que vão se desencadear nas próximas semanas, como a votação do processo do impeachment da presidente Dilma Rousseff, na Câmara Federal, podem definir, além do futuro do país, os rumos da política partidária no estado. 
 
Depois de 13 anos aliado do PT no governo federal, o PMDB decidiu no início da semana romper a parceria política, em um momento de desaprovação da presidente Dilma Rousseff e de grande possibilidade de impeachment – cenário em que o vice-presidente da República, Michel Temer, líder nacional da legenda, se tornaria chefe do Executivo. Um dia antes da reunião da executiva nacional do partido, que definiu o movimento de saída, o potiguar Henrique Eduardo Alves (PMDB), que ocupava o Ministério do Turismo, pediu exoneração do cargo. No estado, ele é da oposição ao governo de Robinson Faria (PSD), para quem perdeu a disputa ao governo em 2014, e que contou com o apoio do PT.
 
O cientista político e professor do Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Alan Daniel Freire de Lacerda, avalia que, caso o impeachment ocorra, Robinson poderia sair perdendo. “Com um presidente do PMDB, pode ser que o estado receba menos recursos do governo federal”, avaliou. Não obstante, Henrique, que é próximo a Temer, poderia ganhar um novo cargo no governo federal e maior poder político no estado, intermediando, inclusive, negociações entre o estado e União. 
 
A situação do PSD poderia ser menos abalada a depender da postura no nível nacional. Até agora o partido está na base da presidente, mas o ministro das Cidades, Gilberto Kassab, autorizou seus liderados a votarem como bem entenderem.
 
No caso de não se concretizar o afastamento da presidente, e mantida a aliança, o grupo de Robinson poderia sair um pouco mais fortalecido e Henrique, que lidera a oposição no estado, estaria sem qualquer cargo eletivo ou de confiança. 
 
“Essa saída de parte do PMDB foi boa, porque mostra em que lado cada um está. Quem saiu era quem estava boicotando o governo e agora nós temos a possibilidade de fazer o Brasil voltar a se desenvolver”, afirmou o deputado estadual Fernando Mineiro (PT), ex-líder do governo estadual na Assembleia Legislativa, que não vê prejuízo da saída do maior aliado do governo. Para Mineiro, sairá fortalecido do processo quem estiver “sintonizado com o projeto nacional” do PT. 
 
Crise deve continuar 
 
Embora o PMDB tivesse mas poder de fogo, assumindo o poder, o impeachment não resolveria de pronto a situação política nacional, avaliam os especialistas. “O impeachment não reduz a crise política. Não dá para apostar em um governo estável de Temer”, afirmou o cientista político Alan Daniel. “Esse é o momento mais confuso da história da política brasileira. Mesmo com o impeachment, essa crise não mudaria da noite para o dia. Existe uma crise de representatividade jamais vista”, reforça um pré-candidato a vereador pela capital potiguar, que pediu anonimato. 
 
Com a necessidade de recompor suas bases, o Palácio do Planalto deverá redistribuir os 600 cargos deixados pelo PMDB para fortalecer as alianças e o apoio dos demais partidos da sua base, que não demonstram total fidelidade ao governo Dilma. No estado, o PMDB comandava a Companhia Docas do RN (Codern), a coordenação regional do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Denocs), a superintendência do Ministério da Agricultura e Fundação Nacional da Saúde (Funasa). Os ocupantes das cadeiras começaram a ser exonerados no final da semana. 
 
O PMDB aposta no afastamento de Dilma e num governo de Temer. Caso isso ocorra, voltará a ocupar alguns destes cargos e distribuí-los aos integrantes da coalizão que quer construir. Por enquanto, são justamente o PSD e o PP que podem sair ganhando cargos no RN. Este último presidido no estado por Betinho Rosado, e com nomes de peso como o da ex-governadora Rosalba Ciarlini, que é favorita ao cargo de prefeita em Mossoró, neste ano. 
 
O PP está dividido dentro da Câmara quanto ao apoio ao processo de afastamento de Dilma. O partido vai agendar reunião para decidir se permanece ou sai das bases governistas às vésperas da votação do processe no impeachment, mas é um aliado de peso que o governo quer manter por perto. A reportagem não conseguiu falar com o presidente estadual do partido.
 
As duas legendas estão entre as principais que podem ganhar novos ministérios (o PMDB tinha sete), ou mesmo cargos políticos distribuídos nos estados. Na última quinta-feira (31), o deputado federal potiguar Fábio Faria (PSD), filho do governador Robinson Faria, negou os rumores de que assumiria o Ministério dos Esportes, mas fontes ligadas a ele confirmaram o convite feito pela presidente. 
 
Outras especulações dão conta de que o deputado teria sido convidado para ser o novo ministro do Turismo, no lugar do próprio Henrique Alves. “O PSD não pleiteia espaço no governo federal e esse assunto está fora da pauta do partido. O momento, segundo o deputado, é de discutir os rumos do país, a retomada do crescimento e os efeitos que geram nos estados e municípios”, afirmou em nota enviada pela sua assessoria à imprensa.
 
PMDB
A estratégia do grupo de Michel Temer encontrou um problema: a divisão interna dentro do próprio partido. Apesar da resolução que aprovou sanções aos integrantes dos partidos que permanecessem no governo, seis dos sete ficaram. Apenas Henrique saiu. O senador do RN, Garibaldi Alves, reconheceu que existe uma divisão interna no partido. “Por hora, isso representa uma divisão. Estão dizendo que a decisão foi tomada em três minutos, mas houve uma convenção anterior, um respaldo político”, avaliou. 
 
O senador afirmou ainda que os peemedebistas potiguares fizeram sua parte, por entender que esse é o melhor caminho para o país. “Se os outros vão cumprir, isso eles têm que discutir”, pontuou. O senador ainda afirmou que não vê qualquer relação entre o cenário político nacional e o local. 

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