O momento de conturbação política que o Brasil vive também reflete
no Rio Grande do Norte e gera uma nuvem de dúvidas, incertezas e
possibilidades quanto às próximas eleições municipais, em outubro, e o
pleito de 2018. De acordo com cientistas políticos, detentores de cargos
eletivos e observadores da cena local, os acontecimentos que vão se
desencadear nas próximas semanas, como a votação do processo do
impeachment da presidente Dilma Rousseff, na Câmara Federal, podem
definir, além do futuro do país, os rumos da política partidária no
estado.
Depois de 13 anos aliado do PT no governo
federal, o PMDB decidiu no início da semana romper a parceria política,
em um momento de desaprovação da presidente Dilma Rousseff e de grande
possibilidade de impeachment – cenário em que o vice-presidente da
República, Michel Temer, líder nacional da legenda, se tornaria chefe do
Executivo. Um dia antes da reunião da executiva nacional do partido,
que definiu o movimento de saída, o potiguar Henrique Eduardo Alves
(PMDB), que ocupava o Ministério do Turismo, pediu exoneração do cargo.
No estado, ele é da oposição ao governo de Robinson Faria (PSD), para
quem perdeu a disputa ao governo em 2014, e que contou com o apoio do
PT.
O cientista político e professor do
Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte (UFRN), Alan Daniel Freire de Lacerda, avalia que, caso o
impeachment ocorra, Robinson poderia sair perdendo. “Com um presidente
do PMDB, pode ser que o estado receba menos recursos do governo
federal”, avaliou. Não obstante, Henrique, que é próximo a Temer,
poderia ganhar um novo cargo no governo federal e maior poder político
no estado, intermediando, inclusive, negociações entre o estado e
União.
A situação do PSD poderia ser menos
abalada a depender da postura no nível nacional. Até agora o partido
está na base da presidente, mas o ministro das Cidades, Gilberto Kassab,
autorizou seus liderados a votarem como bem entenderem.
No
caso de não se concretizar o afastamento da presidente, e mantida a
aliança, o grupo de Robinson poderia sair um pouco mais fortalecido e
Henrique, que lidera a oposição no estado, estaria sem qualquer cargo
eletivo ou de confiança.
“Essa saída de parte do
PMDB foi boa, porque mostra em que lado cada um está. Quem saiu era quem
estava boicotando o governo e agora nós temos a possibilidade de fazer o
Brasil voltar a se desenvolver”, afirmou o deputado estadual Fernando
Mineiro (PT), ex-líder do governo estadual na Assembleia Legislativa,
que não vê prejuízo da saída do maior aliado do governo. Para Mineiro,
sairá fortalecido do processo quem estiver “sintonizado com o projeto
nacional” do PT.
Crise deve continuar
Embora
o PMDB tivesse mas poder de fogo, assumindo o poder, o impeachment não
resolveria de pronto a situação política nacional, avaliam os
especialistas. “O impeachment não reduz a crise política. Não dá para
apostar em um governo estável de Temer”, afirmou o cientista político
Alan Daniel. “Esse é o momento mais confuso da história da política
brasileira. Mesmo com o impeachment, essa crise não mudaria da noite
para o dia. Existe uma crise de representatividade jamais vista”,
reforça um pré-candidato a vereador pela capital potiguar, que pediu
anonimato.
Com a necessidade de recompor suas
bases, o Palácio do Planalto deverá redistribuir os 600 cargos deixados
pelo PMDB para fortalecer as alianças e o apoio dos demais partidos da
sua base, que não demonstram total fidelidade ao governo Dilma. No
estado, o PMDB comandava a Companhia Docas do RN (Codern), a coordenação
regional do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Denocs), a
superintendência do Ministério da Agricultura e Fundação Nacional da
Saúde (Funasa). Os ocupantes das cadeiras começaram a ser exonerados no
final da semana.
O PMDB aposta no afastamento de
Dilma e num governo de Temer. Caso isso ocorra, voltará a ocupar alguns
destes cargos e distribuí-los aos integrantes da coalizão que quer
construir. Por enquanto, são justamente o PSD e o PP que podem sair
ganhando cargos no RN. Este último presidido no estado por Betinho
Rosado, e com nomes de peso como o da ex-governadora Rosalba Ciarlini,
que é favorita ao cargo de prefeita em Mossoró, neste ano.
O
PP está dividido dentro da Câmara quanto ao apoio ao processo de
afastamento de Dilma. O partido vai agendar reunião para decidir se
permanece ou sai das bases governistas às vésperas da votação do
processe no impeachment, mas é um aliado de peso que o governo quer
manter por perto. A reportagem não conseguiu falar com o presidente
estadual do partido.
As duas legendas estão entre
as principais que podem ganhar novos ministérios (o PMDB tinha sete), ou
mesmo cargos políticos distribuídos nos estados. Na última quinta-feira
(31), o deputado federal potiguar Fábio Faria (PSD), filho do
governador Robinson Faria, negou os rumores de que assumiria o
Ministério dos Esportes, mas fontes ligadas a ele confirmaram o convite
feito pela presidente.
Outras especulações dão
conta de que o deputado teria sido convidado para ser o novo ministro do
Turismo, no lugar do próprio Henrique Alves. “O PSD não pleiteia espaço
no governo federal e esse assunto está fora da pauta do partido. O
momento, segundo o deputado, é de discutir os rumos do país, a retomada
do crescimento e os efeitos que geram nos estados e municípios”, afirmou
em nota enviada pela sua assessoria à imprensa.
PMDB
A
estratégia do grupo de Michel Temer encontrou um problema: a divisão
interna dentro do próprio partido. Apesar da resolução que aprovou
sanções aos integrantes dos partidos que permanecessem no governo, seis
dos sete ficaram. Apenas Henrique saiu. O senador do RN, Garibaldi
Alves, reconheceu que existe uma divisão interna no partido. “Por hora,
isso representa uma divisão. Estão dizendo que a decisão foi tomada em
três minutos, mas houve uma convenção anterior, um respaldo político”,
avaliou.
O senador afirmou ainda que os
peemedebistas potiguares fizeram sua parte, por entender que esse é o
melhor caminho para o país. “Se os outros vão cumprir, isso eles têm que
discutir”, pontuou. O senador ainda afirmou que não vê qualquer relação
entre o cenário político nacional e o local.
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